quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O último ladrão


Espantado, olho ao lado do meu corpo

o denso Vazio que fumava meu sorriso.

Era a noite, mal-educada, que tocava

em mim a ausência, gargalhando aquilo

que eu trancava em meus dias.


E quanta arrogância no seu rosto,

que me acordava aos sustos, cuspindo

desesperanças e velhos espelhos,

enquanto, fraco e surdo, encaro-o,

deportado da brandura que me iluminava.


Tirando o cigarro da boca, pôs-se

em minha frente – rígido.

Travou meus passos, apontando os olhos

para minha fatigada face.


Estáticos. Silêncios. Frio.


Do nada feito, porém rei na longa noite,

o Vazio expandiu-se, a confundir-se

com o Universo. Postes, luzes e estrelas,

engolidas pela fome negra, apagaram-se.


A noite não devorou meu tremor e meu frio,

para marcar-me a memória do que ela deixou,

do que me levou. Do que eu a deixei levar.


E minhas mãos, a agarrar lágrimas e desesperos,

confundiam-se com a noite, em meu rosto coberto –

de dor, vergonha

e medo.


Estava só. Nem alma ou redenção surgiam.

(Depois do terceiro dia restaria apenas cinzas

do cigarro. De mim.)


Estava só. Tocando o etéreo da esperança

que pousava em meus ombros em tinta falsa,

escorrendo de um urubu.


Queria gritar, destemperado,

enlouquecido pela fúria!

Xingar os céus mentirosos,

pintados de azul para rir por dentro

o vácuo de nossa insignificância!


Queria esmurrar a dor,

fazê-la doer mais e mais,

até meu sangue lavá-la,

tal pecador a barganhar paraísos

com deuses mesquinhos.


Mas estava só.
E até meu coração – mudo – foi-se,

deixando-me o eco do que um dia sorri


no Vazio do mundo a me digerir.




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