quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Só, lá em si



Violão

e voz
a sós
nos dós
do si

no fim
dos sóis.



lanço
o som
seco

a mim
a ti
sentir
o som

só.



sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Adormecer



A noite, em negro véu,

vê a vaga volta da vida,
que no dia
se vira
viva.

A vida vaga
agora se vira
na ida erma
ao oculto véu,
sombra cinza,
silente voz
soprando
o silêncio.



terça-feira, 17 de novembro de 2009

Pensamento dos dias parte 11



A simpatia é o dom dos humildes, o conforto dos carentes e a arma dos idiotas.



quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Fim do ranger



E tinha certo cuidado, como com tudo aquilo que possuía valor. Esse ‘tudo aquilo’, na verdade, não passava de uma coisa só. Talvez não valesse nem uma moeda velha, mas para aquele velho solitário, era o que o mantinha vivo. Os anos passaram depressa; a velha cadeira de balanço já rangia seu fim. Nela, apenas viu acenos. Vários acenos. Os que se sentavam ao lado (havia esses?), nem um balanço deram. O vai-e-vem do assento ia, lentamente, acompanhando o tempo do velho. Aquilo que ele tanto cuidava era o que sacolejava a velha cadeira. Se mais alguém fez isso? Ele não acreditava. Era sozinho: nisso sim ele tinha fé. E bastava. Balanços de mãos distantes não chegavam à cadeira.

E assim sua vida seguia. Nada mais a esperar, apenas o sossego da cadeira. E o que era o fiel enigma do velho? Ele praticamente não diz. E não adianta o pouco que se ouve: ninguém entende. O velho apenas murmura: ‘algo balança esta cadeira’. Vida estranha a desse homem... Olhar, sozinho e sentado em um amontoado de madeira velha, o mundo passar. Nunca se levantou! Comentários feitos pelos outros que, chegando aos seus ouvidos, faziam com que ele mostrasse um triste sorriso. ‘As mãos continuarão distantes. Elas não balançarão minha cadeira; me empurrarão ao chão’. Dizendo isso, apertava ainda mais o misterioso objeto que ele tinha. As juntas da cadeira de balanço soltavam sons mais fortes. Se é dor, se é medo, se é felicidade, não há como saber. O som não se entende com os ouvidos. Nessas horas de rangidos, o velho fechava os olhos, apagando a luz da realidade trazida nas mãos de aceno. Era quando o velho sorria. Raramente.

Era isso que fazia com que o velho teimasse a deixar que o balanço cesse. Sozinho está, sozinho ficará, apenas com a companhia do desconhecido objeto. Olhou demoradamente, derramou uma única lágrima em cima daquela misteriosa matéria e, como se antes não existisse, ela sumiu das mãos do ancião. Mas ele não parecia se importar – já esperava que isso acontecesse algum dia. O balanço lentamente parava seu vai-e-vem. Os rangidos não se escutavam mais. O velho então colocou seus pés no chão. Sua antiga e triste feição voltou ao rosto. Sem sair da cadeira, seus olhos se fecharam.



terça-feira, 10 de novembro de 2009

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Um corpo a cantar



Olhos claros, trazendo

os suaves passos
do seu mistério.

No de repente
da carícia,
acuado estou:
poucas palavras
escrevendo,
nos sorrisos,
dicionário
de desejos.

Coro,
corpos,
corações:
melodias
na regência
de uma maestrina.



domingo, 1 de novembro de 2009

Um mero grampo



Agora dobrado em seu vazio, abraçado ao passado vestido de um pedacinho de papel. Antes útil: metal, elo, folhas juntas – um livro. Na verdade, xerox, mas os direitos autorais não embargam a beleza das letras. O grampo era a corrente das páginas daquela história leve, lida em breves horas. E era sua alegria se entrosar naquela pequena história que nunca terminava. Não apenas fazia com que um ou outro lesse o texto sem se perder em papéis soltos, mas também se deleitava com a história. Também a construía.

Mas o grampo era fraco. Fino. Queria ser personagem naquela fábula, queria estar nela. Mas o canto era seu lugar. A assistência para que a história fosse bem lida. Não devia se iludir: o ferro fino que era faz da sua fé ferrugem. O abraço em folhas era alegria, mas o vácuo se intromete nos braços. O grampo era só e suas folhas eram sua história.

Voam-se as folhas, soltas, no ar, alheias aos braços abertos do grampo, pedindo-as de volta. A história ainda vivia? Decerto. Organizaram-na numa encadernação: capas duras que vento ou tempo não podem ferir.

O grampo, no chão, desusado. Um pedaço de folha ainda preso nele. É o que ele pode ter. Era o que a história poderia ser para ele. Nada mais.