quinta-feira, 5 de junho de 2014

O pó de voz



Coçando a garganta pra sufocar o incômodo, não percebi inútil o gesto. A voz, interrompida, teimava palavras cansadas de furar o bolo que, inconveniente, se inflava. Mas de verbos, migalhas de sons secos sacudiam os ouvidos fartos e insones, de vistas tediosas. Engasgavam as pálpebras, talvez pra capturar o que no ar vibrava meus recuos.



E meu corpo, afásico de ser, observada frangalhos fonemas debaterem-se no chão, em sede, corroendo-se com o peso daquele pedaço de receio que incomodava-se em minhas vias. Minha língua, estranha a mim, logo enrolava-se em fricções áridas, descascando-se: e em cada arrastar vão, a dor e a mudez, empoeirando-me. E os que desejavam o sono veem agora o pó, tímido, traindo suas vistas e sumindo - marejando olhares e sussurrando silêncios.

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