terça-feira, 28 de abril de 2009

Minuano



Céu fechado.
Chão inundado.
Gotas se congelam:
gelo que prende a vida
em um vaso de espera.


Uma folha seca cai no chão.

Passos são mudos por
lamentos que choram
em frestas de rochas.

O cinza, tinta da alma,
colore o quadro negro
de rabiscos de vazios.

O vento veste esse vácuo,
voz da existência,
com os sons rochosos.

O som do ar:
esse sopra algo.

Apenas ele
diz algo.


sexta-feira, 24 de abril de 2009

Caminhada praieira



Direto ao ponto principal
Direto ao momento tão sonhado
As ilusões são dolorosamente dilaceradas
Bem onde a descoberta inicia
Nas fontes secretas da emoção
Profundamente guardadas em nossos corações
(Rush - Emotion Detector)



Passo escasso
agora apagado

Passo a passo
passo a seu lado

Passado falso
ressurge no afago

Triste fado
Só me arrasto


quarta-feira, 8 de abril de 2009

"Descendo..."


O homem levava outros a tetos e térreos,

mas seus olhos não saíam do chão.

Era um vazio em seu rosto,
tamanho vácuo que a face tornara-se sombra.

O ascensorista nas luzes e números se anulava.

O que restava era o sorriso
que ficava no crachá,
rosto do assujeito.

A foto foi tirada no último andar,
a única visita ao topo
de um rosto que lá ficou

e aqui, vazio, desce.



sexta-feira, 3 de abril de 2009

Como (sobre)viver num curso de Humanas (repostado)


1. Sempre diga que está lendo um livro de algum autor canônico ou famoso. Caso não leia, pegue o resumo do texto que o professor falou e vomite para todos. Textos de Foucault são infalíveis para citações.

2. Filmes, só em sala de arte. Nunca diga que você foi ao Cinemark ver Crepúsculo (se for, vá escondido. Um filme desses não é para seu 'nível', não acha?).É essencial saber, pelo menos, nomes de três diretores que ninguém saiba.

3. Jeans e camisa da Mitchell? Esqueça! Sua roupa precisa de, pelo menos, 5 cores distintas. Óculos pretos apenas se forem bem estranhos. E para calçado, o bom e velho All Star.

4. Futebol é esporte de massa. Você defende a massa, mas não gosta de esporte. Exercício físico está relacionado a trabalho não-intelectual, coisa de gente de baixo nível. Você é 'intelectual', não esportista (nas aulas filadas, jogos de baralho são permitidos).

5. Não debata; quebre, queime, grite, xingue, ofenda etc., mas sempre, ao final, defenda a liberdade.

6. Fume maconha e 'respire' seu discurso libertário. Mas não se importe com a procedência.

7. Ouça MPB e/ou qualquer banda ou artista que seja nacional e que faça algo novo ou fora da mídia (você deve acreditar nisso). Apesar de suas escolhas acabem sendo muito parecidas com a de outros cults, não se importe: vocês são diferentes.

8. Você é 'culto', então sabe mais que os outros. Não dê ouvidos a outros argumentos. (causa do tópico 5)

9. Seja sexualmente liberal, mas abomine o carnaval e festas de axé.

10. Abomine qualquer outro estilo musical que não seja MPB, música erudita ou algo que tenha relação com culturas regionais. Em caso de música internacional, procure sempre o mais desconhecido e sonoricamente estranho (para uma mente cult, será apenas 'diferente').

11. Seja vegetariano. Se você achar um cachorro abandonado na rua, leve-o para casa. O mendigo pode ficar onde está.

12. Nariz empinado é tão obrigatório quanto um militar marchar corretamente. Em caso de óculos normais, assim como os de sol, devem ser estranhos, chamativos.

13. Não use marcas famosas. Deixe pra comprar camisas caras na Mito. Vá em grupo com seus amigos cults para comprar. Assim vocês saem vestidos com a mesma camisa, diferenciando-se do resto do povo.

14. Não leia, nem sob tortura, Paulo Coelho. Critique-o sempre. Sempre! (e daí que você não leu? Critique!)

15. Compre revistas que realmente se importam com o social, com uma população mais bem informada. Mas prepare-se: elas são caras (e nem todos podem comprar – fator que também te torna um 'culto').

16. Faça curso de teatro, ou pelo menos seja teatral. Ser espalhafatoso também é ser 'culto'.

17. Utilize qualquer coisa no seu nome do MSN, menos seu próprio nome. Sempre utilize uma frase de MPB ou de um poeta em sua mensagem pessoal.

18. Seja expert em teses para liberação de drogas, mas esqueça uma forma efetiva de distribuição de renda (ou você não acha que o Bolsa Família é assistencialista?). Você pode simplesmente deixar de lado esse discurso e se focar apenas em ideais libertários (sexuais, de preferência).

19. Tire fotos estranhas. Não serão estranhas, mas sim profissionais, de quem tem um olhar artístico (capacidade cult).

20. Gaste uma fortuna em um show de MPB, mas critique quem paga caro para ir em shows de axé ou forró. A sua diversão é mais construtiva.

21. Cult = culto = elite intelectual. Acredite nisso.

22. Seja devoto de São Jorge ou, pelo menos, coloque em seu perfil do Orkut a oração dele.

23. Você é culto, então não pode achar graça desse texto superficial e sem criticidade. Nos seus chás, cafés e saraus nascem discussões e textos muito mais construtivos. Alias, Ser cult implica NÃO visitar este blog.


quarta-feira, 1 de abril de 2009

In Terrae memoriam


Mundo mundo, vasto e defunto,

veja agora seu fundo túmulo
cavado pelo homem imundo.

Mundo mundo; vácuo e destrudo.
Quando o último verme
vomitar sua ossada,
a enxada aterrará
o antes coveiro.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Restou o cascalho, apenas



Não tinha mais o sabor do arco-íris nas mãos.

Olhava o chão, frustrando esperanças:
e apenas o sol. O sol.

O fresco frio se foi
e as gotas que escorriam nas mãos secaram.

Ficou apenas o triste grude
do sorvete cadente.

E o sol

rachando olhos e boca,
matando o colorido que,
das mãos da chorosa criança

derrete no agora-cinza à sua frente.


quinta-feira, 19 de março de 2009

Letargia


Foi só o tempo de olhar para o lado. Quem o chamou não estava mais à vista. Caio acordara no meio da noite com uma voz a chamar. Estava sozinho e a casa era pequena. Não havia como ser alguém conhecido. Ou havia? Depois de erguer o tronco da cama, continuou a olhar atentamente para a porta, tentando ver, ou imaginar, algum corpo que mostrasse ser autor do vocativo. Nada. O abajur havia quebrado; a única forma de iluminar o cômodo era pelo interruptor. Caio hesitava; tinha certeza de ter ouvido alguém o chamar. Faltava seus pés tocarem o chão para verificar. Mas se não mora ninguém comigo, como alguém me chamou? Os sons de fora se misturam com pensamentos; a chuva forte afina-se com os relâmpagos, deixando ainda mais nebulosa sua mente. Certo. Deve ter sido devaneio meu. Algo lá fora fez um som e achei que fosse comigo. Não se lembrava dos seus sonhos; coisa comum. Cruzando as pernas na cama, mais uma vez Caio olha para a porta do quarto, aberta, na tentativa de enxergar algo. Escuridão. Seus olhos não se contentam com o vazio. Relâmpagos caem. Com a luminosidade, um vulto se forma ao fundo do escuro, do outro lado da porta, perto do corredor. Agora eu vi! Sim! Tem alguém aqui em casa! Caio, quase caindo, recua até o canto da cama, tenta ligar o abajur, que não responde. Gotas se esbarram nas telhas, folhas e na calha de plástico; o vento geme ao passar pelas frestas da janela; a voz o chama de novo. De novo. Seus olhos procuram outros espaços escuros do quarto – há um canto restante, escondido pelo armário. O lado de fora da janela parecia um mundo de possibilidades; quem me chamou poderia estar lá agora. Voltava a olhar o corredor, esperando outro raio de luz para guiá-lo; os pés não saíam do cobertor quente. O canto do armário era espaçoso o suficiente para alguém se esconder; já fiz muito isso mais novo. O canto perfeito para choros pós-surra de mãe. Alguém poderia facilmente estar ali, sentado. Outro relâmpago. Caio vira-se para o corredor novamente. Nada. Sem mexer a cabeça, olha para as extensões do quarto, inclusive para o teto. Ele não olha para o chão. Os pés não se movem para pisá-lo. Deve estar lá fora. Com certeza já saiu. Mas nenhum barulho indicou para isso. Sem passos, sem maçanetas, sem batidas de portas. Caio tenta ouvir algo que o guie; chuva, trovões – barulhos. Seus olhos veem apenas em flashes.

Agora deitado, Caio tenta voltar a dormir. Seus olhos fixos no teto passam um bom tempo nessa ação. O sono demora a vir. Novos relâmpagos, mas agora o sono é mais forte. Os olhos fecham-se vagarosamente. Pendendo a cabeça para um dos lados, Caio adormece. Os barulhos se emudecem, e outras vozes o chamam.