domingo, 27 de abril de 2014

O ar de rosas



Cego de cinza, eu calçava passos
de desquerer, descrentes de sol.

E pedras crispavam pés
em labirintos silêncios.

Mas um rosa cheirou meus olhos,
Pintando uma mão, fio dourado
a trançar-me sorrisos.

Caído o claustro, cavo o céu
de pétalas, planto confortos
e colho um peito a riscar-me.

Aspiro o decalque do que,
desvisto, acreditei apagado:

olhos de só azul, iluminados –
cores que dele saem, infinitas

e o perfume de querer aquarelas.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Voo abissal


De nadar cansei, com braços de nadas,
estendendo o olhar para qualquer azul:

única força a tanger a tormenta,
enquanto a carne flutua - pesada.

A vista voa feito vela a a vestir ventos,
vagando solta da voz que afunda - vazia.

E o corpo pende no fio do espelho d'água,
profunda pedra a perder o peito que pulsa.

E se me perco de mar, martírio de ser,
deixo olhos do que vi lá, em outro azul.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

A fratricida


Vi afundar a palavra naquela distância gritada,
eco de um olhar que se esconde e esquece.

De sua mão, a afagar esse mar de penhascos,
sequer a palma aberta, acenando fins:

apenas cascalhos e cavernas restam
nos dedos cerrados de secura.

Abissal e surda,
sua andança
tudo leva.
Nada leva.

Enterra.
E segue.


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Noite vaga


Era um silêncio estranho, calma rasa,


dando enjoos de vazios a um corpo
esquecidamente cansado.

Ensinava a mim mesmo a encher o peito
com a maresia que embolava as algas mortas.

Comia o ar, pois era a matéria que bastava.

Percorria as insossas espumas que o mar cuspia,
chutando o azul sem som.

E na noite que chegou, cheia,
a lua gritou a maior maré.
E em minha barriga,
uma dor que treme 
lágrimas.

Eu havia esquecido o que era saudade.


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A terceira cor



Olho, calçando a luz de um sol em despedida,
voltas turvas e várias de um vermelho borrado.

O pincel que a criança deixou cair
escondeu-se numa velha alma
que rascunha com gastas vistas,
com cinzas e duras tintas.

A paleta secava o tempo
com o pó das tintas mortas:

poeira que maquiava o silêncio
na face branca, vazia.

E uma pedra de carvão
arrasta-se na tela poente,
no difícil risco
de um querer gasto.

Em vermelhos e pretos,
escorre toda a matéria,
espalhada por um sopro.

Você, imagem disforme,
desfaz-se, num amar-além,
ar que o futuro sussurra,

que apenas restos leva –
vontade que rabiscou o nada.