terça-feira, 22 de maio de 2012

Preces e botes


“Não sei.” Disse, virando o resto da cerveja. Segurando o copo vazio com as duas mãos, com os braços apoiados na mesa e encarando-me, repetiu: “Não sei.” Desviei o olhar de seu rosto, procurando no ambiente algum fôlego perdido em uma mesa vazia, numa flanela de garçom ou nas grades de um grupo alegre e desequilibrado. Mas eu tropeçava e escorregava no nó de minha garganta.  “Não sei.” Eu entrelaçava as mãos, como se começasse uma prece, porém minha memória nunca foi afeita a eucaristias. Aliás, o que esqueço é minha salvação. 

A certeza que me rodeia é a tarde. O sol das 15h, em céu aberto, passeia nas árvores que desenhavam sombras no bar onde estamos. Eu ficaria até o pôr-do-sol, e o tempo pra mim não importa mais. Nem o sol. “Não sei.” Ainda com as mãos, trêmulas, em volta do copo, eu tento encará-la. Fachos a iluminam, desenhando claridades no seu rosto, alheio. Baixo. Oco. O que tento dizer ficou no som dos galhos sacudidos pelo vento da orla. “Não sei.” Ela não se move; nem ao menos seu tique insuportável de balançar a perna ininterruptamente surge pra dar movimento a nós, duas estátuas sendo contempladas por uma brisa e um sol sem graça.

Lembrei que, quando guri, o mar era meu amigo imaginário. Minha mãe sentia vergonha de minhas conversas com esse grande amigo, que às vezes berrava ondas, desafiando-me. Ele sempre falava, falava, falava. Até nas calmarias, quando, em cochichos, vinham piadas sobre os estranhos de roupas coloridas na praia ou das moças bonitas que eu, criança, sonhava casar. Quando não sei, o mar parou de conversar comigo. “Não sei.” E agora tento tirar dele, longe, alguma onda. Marola. Até um castelo de areia que ele vivia levando de mim. Mas nada vinha. Nem o garçom. “Não sei.”

Ela se levanta, dizendo que depois conversaríamos. “Não sei.” Ainda tentando ouvir mares, balanço a cabeça afirmativamente, mas nesse meneio nem o gringo bêbado, solitário e risonho da mesa 08 acreditaria. Eu o olho, enquanto, em meu corpo, a sombra dela passa, dirigindo-se à saída. Encho o copo de cerveja (outro garçom resolveu me atender). Deixo o corpo cair na cadeira e, ao pender para trás, minha cabeça recebe todo o sol no rosto. 16:30. “Não sei.” Sentado na balaustrada, minhas mãos suam. Lembro-me da catequese, que se estendeu por dois anos, “para a manutenção da fé nos novos.” Não há orações em minha mente. Ouço o mar ordenando ao sol seu repouso. Ele sempre gostou de ser maior. Desde a época de nossa amizade que eu sabia de sua inveja: ser figurante para uma pequena bola de luz o fazia urrar tormentas nos pequenos barcos da praia. Mas só eu ouvia seus lamentos. “Não sei.” Era isto que eu ouvia no bar: o pôr-do-sol. E uma estranha sede passa pela minha garganta, que, entre nós e securas, me faz engolir o inesquecível. 

Sem preces ou botes, resta-me conversar longamente com o mar e olhar não mais o sol, mas uma criança, alegre, construindo, cuidadosamente, um castelinho de areia. Com os pais afastados, seu pequeno universo moldava-se em suas fofas mãos, deus de fraldas e inocências. E, por enquanto, nenhuma onda parecia ameaçar aquele pequeno mundo. 

Olhando-a, esqueço de mim. 

sexta-feira, 4 de maio de 2012

... a calmaria.

... a calmaria by alexpitta

E o mar que restou entre os dedos descalços
sem sal se arrasta pálido e tedioso.

Ainda trêmulo o chão avisa o medo nos escombros
e do cascalho os cortes sobem a rosto e olhos.

No litoral, o passado desponta em restos
diluídos em águas de dissimuladas calmarias.

No corpo nem o sinal da mais rota roupa,
que voou no primeiro sopro do grande vento.

Apenas os olhos cobrem-se com silêncio
e o furacão, longe, pede desculpas com um ralo céu azul.


domingo, 29 de abril de 2012

A gota de lábios



Nunca provei do vermelho que escorre
do leve de seus lábios. 
Mas pintam meus olhos, cegos das cores,
que, subitamente, sentem a sede de arco-íris.

Nunca provei do vermelho que inflama
a carne de seus lábios.
E num estranho sentir do Sol em cada solto sorrir,
desfaço-me em fagulhas de vontades, estalando suspiros.

Nunca provei do vermelho que toca
a carne de meus lábios.
É o maior dos sonhos que toma meu corpo – incandescido
e que mergulha no tinto etéreo do prazer.

Nunca provei do vermelho que embebeda
a carne de meus lábios.
Porém em vagas calmas e tormentas me encho
de desejo: oceano, vulcão e sangue.


segunda-feira, 26 de março de 2012

O nascer da calma

                                      "Senta-te ao sol. Abdica
                                       E sê rei de ti próprio."
                                                       Ricardo Reis

Indiferentes ao chão que pisava,
meus pés calçavam a brisa do mar
a mergulhar em minha vista.

Guardando leves ondas e laranjas riscando as águas,
os olhos fechavam, já sabidos do caminho –
eternos na clara rota em calma passada.

Na profundidade maior do azul,
apenas a leveza transbordava som,
ressoando no curso onde minha alma fluía,

esquecida do peso, da terra, da espera e do agora.
A Vida trança barbatanas em meu corpo
e dança em cardumes que se pintam de sol,

brilhando pedaços de Infinito.
Onde sigo, sinto
e flutuo.



sábado, 3 de dezembro de 2011

Cristal


Um copo que pouco importava na mesa de um tranquilo bar. Havia sido deixado pelo garçom, que se passou no número dos confrades. Típico vidro que aparentava ter sido antes recipiente para algum requeijão ordinário ou outro produto qualquer, levantando a incerteza de sua original função. Pois lá estava, vazio: ninguém chegaria para dar serventia ao desnecessário objeto, tampouco alguém da mesa lembraria sua presença. Os cuidados se voltavam a copos cheios e garrafas a somarem-se ao pé da mesa e na bandeja do garçom, solicito por conta do entusiasmo dos clientes. A sua sincera transparência tornava-o invisível, útero infértil, vazio em sua morta alegria. Por mais que estivesse ali.
  
Porém uma mão aproxima-se cuidadosamente e, resoluta, segura o copo disposta a preenchê-lo. O tédio ébrio fez do vidro seco vaso, agora tonto no suor frio da esperança de uma gota, ao menos. O tato quente tirava o gelado da espera na mesa cambaia, tal qual cadeira de balanço a guiar os velhos entre passado e presente no pêndulo da memória. A boca, sempre aberta, parecia até sorrir, vendo a garrafa inclinar-se para depositar parte de seu interior.

 Porém o descuido: a mão, na confusa embriaguez, perde-se na coordenação e falta de firmeza. A garrafa ainda deixa pingar gotas na borda do copo que, inevitavelmente, desliza pela palma, rola pela mesa – inutilmente sendo amparada por outras mãos – e se desfaz no chão, espalhando os restos por cantos incertos, que a vassoura não achará. 

Segundos de atenção são roubados pelo copo: os presentes na mesa, recuperados do susto, fazem as costumeiras graças daqueles que, na alegria inebriante do álcool, não pensam em restos e cortes. A mesa continua a abrigar garrafas e brindes. E algumas gotas ainda escorrem dela, pingando no cimento um brilho que se confunde com estilhaços do frágil copo.




segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Da face, a noite



Perdi o sono, a noite e você.

E a distância entre nossos olhares

Apenas o silêncio media.


Vi meus olhos chamarem no velho espelho

Meu rosto gasto, esquecido pela sua voz doce,

Que brilhava a luz de seu sorriso.


Minha cama agora é o reflexo a me encarar:
reviro-me, estremeço, choro.

Enquanto a noite perdida arrasta-se


Nos passos que te levam.




quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O último ladrão


Espantado, olho ao lado do meu corpo

o denso Vazio que fumava meu sorriso.

Era a noite, mal-educada, que tocava

em mim a ausência, gargalhando aquilo

que eu trancava em meus dias.


E quanta arrogância no seu rosto,

que me acordava aos sustos, cuspindo

desesperanças e velhos espelhos,

enquanto, fraco e surdo, encaro-o,

deportado da brandura que me iluminava.


Tirando o cigarro da boca, pôs-se

em minha frente – rígido.

Travou meus passos, apontando os olhos

para minha fatigada face.


Estáticos. Silêncios. Frio.


Do nada feito, porém rei na longa noite,

o Vazio expandiu-se, a confundir-se

com o Universo. Postes, luzes e estrelas,

engolidas pela fome negra, apagaram-se.


A noite não devorou meu tremor e meu frio,

para marcar-me a memória do que ela deixou,

do que me levou. Do que eu a deixei levar.


E minhas mãos, a agarrar lágrimas e desesperos,

confundiam-se com a noite, em meu rosto coberto –

de dor, vergonha

e medo.


Estava só. Nem alma ou redenção surgiam.

(Depois do terceiro dia restaria apenas cinzas

do cigarro. De mim.)


Estava só. Tocando o etéreo da esperança

que pousava em meus ombros em tinta falsa,

escorrendo de um urubu.


Queria gritar, destemperado,

enlouquecido pela fúria!

Xingar os céus mentirosos,

pintados de azul para rir por dentro

o vácuo de nossa insignificância!


Queria esmurrar a dor,

fazê-la doer mais e mais,

até meu sangue lavá-la,

tal pecador a barganhar paraísos

com deuses mesquinhos.


Mas estava só.
E até meu coração – mudo – foi-se,

deixando-me o eco do que um dia sorri


no Vazio do mundo a me digerir.