domingo, 16 de novembro de 2014

Déjà vu


Me canso e morro de distâncias não ditas.
Os pés ardem do peso do pó
de uma encruzilhada à frente
e racham-se, temendo a secura.

Ponderando imponderáveis,
calço meus calos do medo desvisto,
desenhado por miragens passadas de trilhas e perdas.

E permaneço.
Morto.
Assassinado pela sede não sentida -

enquanto águas me contornam,
margens brilhantes de cegueira e vida:

os pés, hidrófobos, afundam-se pedras,
(des)esperando a dor futura.

domingo, 28 de setembro de 2014

Via Láctea


Não vi a noite naquele universo
quente, de claro afeto e calma.

Um som rasgava minhas órbitas
mortas há milênios-luz,
e um sol tonteava astros em mim.

Afundava-me no Branco,
pulsante, como o primeiro fogo –
o verbo que, de sua boca,
brotava a aurora do universo.

Eu desvia a vida em que afundava,
secando-me de vácuo e frio:

quando mudo me quis Lua,
explodi, supernova.

E da luz aberta,
num Todo-horizonte,
era eu clareira,
caminho,
você.

domingo, 21 de setembro de 2014

Apneia


Mergulho, afundando o fôlego
na calma azul do dia, de marolas e suspiros.
O ar percorre o corpo – sabido do fim –
inundando de mar as veias.

Os braços soltam-se, abertos,
percorridos de desejos molhados,
e um sol educado põe-se,
tingindo laranjas no mar incandescente.

Os olhos fecham-se, serenos,
despindo sinestesias.

– Dispo-me da superfície insossa e seca –

E, a fundo, ignoro o ar que finda,
feito de futuros e securas.
As águas que me respiram carregam
o gosto de sol, sal – seu –
na noite navegada de universo.

– Pulmões extasiam-se num gemer abissal –

No mar em que amanheço,
ecoo marulhos, acordado de distâncias:

respiro gotas, infinitas, de um
atlântico vermelho, pulsante.

Auroras irrigam valsas
de meu vasto e rochedo peito.

sábado, 20 de setembro de 2014

Abissal de Narciso


A última gota esvai-se no espelho.
Borrada, escorrida de incertezas,
trança frestas sentidas.

Há silêncios trincados – veias expostas
de um moribundo sorrir, sonhar.

O dilúvio em cacos,
mar de eus náufragos:

ilhados na areia ferina e fervente,
evaporando o traço rascunho –
antes falésia dos olhos altos,
mirados ao céu, apoiados em águas.

                           .   .   .

Os cascalhos chacoalham ecos,
seixos de si, saudosos,
sedimentos sentimentos:

um rosto apagado,
alagado de pó,
vento
e nada.






quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Aquário de náufragos



Há um lago de tormentas represadas,
de um claro-calmo falso,
margeando o incabível.

Um dia infinito - marítimo querer -,
o espelho d'água parte-se
em abissais,

e o mergulho,
derramar-se da alma,
agora afunda, sufocante,
a íris que grita
o reflexo.

O oceano que se desfaz,
espirrando o lago,
é eco de longo anseio
de um frágil nadar,

despido de face, fé
de fôlego -

de fim. 

quarta-feira, 25 de junho de 2014

A cor que olha

Devora-me.
Adocica pressas -
passeia-me desejos.

Choques, peles e cores
enroscam-se rindo -
elevando-se, leves.

Um gosto caramelo,
faminto, guardo.
E um corpo de fogo,

derretido em suspiros,
grudados, mordidos -
Incontáveis.

O ar que fica
vê-me, na cama
vazia e virada,

e vicia-me - você.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

O pó de voz



Coçando a garganta pra sufocar o incômodo, não percebi inútil o gesto. A voz, interrompida, teimava palavras cansadas de furar o bolo que, inconveniente, se inflava. Mas de verbos, migalhas de sons secos sacudiam os ouvidos fartos e insones, de vistas tediosas. Engasgavam as pálpebras, talvez pra capturar o que no ar vibrava meus recuos.



E meu corpo, afásico de ser, observada frangalhos fonemas debaterem-se no chão, em sede, corroendo-se com o peso daquele pedaço de receio que incomodava-se em minhas vias. Minha língua, estranha a mim, logo enrolava-se em fricções áridas, descascando-se: e em cada arrastar vão, a dor e a mudez, empoeirando-me. E os que desejavam o sono veem agora o pó, tímido, traindo suas vistas e sumindo - marejando olhares e sussurrando silêncios.