terça-feira, 23 de agosto de 2011

Do cansaço

Às vezes, me canso de tudo.
Há vazio e inércia na constante fadiga,
nos fingimentos de sorrir.

Um sol quase claro mantém-se sobre as faces-poças,
sujas e surdas – déspotas-bufões a dançar algemas em minha boca.

(E eu queria a liberdade de chorar meu céu nublado
em anoitações de versos que só minha chuva ouve.)

Por isso cansar é minha melhor incompreensão.
É quando desconverso as horas e a tempestade
me sopra contra meu peito-rochedo.

E todos em volta, afundados em rasa vida,
pedem-me, gritam minha calmaria, perdidos.

Mas estou cansado demais para botes ou mensagens em garrafas.
Minha nau viaja em meu oceano, distante de ilhas paradas,
punhados de pó amarelo dos sorrisos que outrora me mentiam faróis.

Minha bússola são tormentas,
e da calma morte
do sempre da vida,
estou longe.


***

Mas tudo isso pode ser apenas cansaço de hoje.
Nada mais.




sábado, 20 de agosto de 2011

O Barco



Navegamos em estradas enrugadas,

cujo norte, em mistério azul, esconde-se.

Pés fincados no Barco, cortando o leito do Tempo,
de dobras onde a memória trilha afluentes.

Se nossos pés soubessem cavar, virariam raízes.
Mas nasceram virados pra frente, proas da vontade.

E cavar pode ser a secura, foz derradeira
de querer fazer nascer terra onde o Rio impera,

e afogar-se no abissal da ilusão, enterrando-se na mais
solitária ilha. Desterro de náufrago que vê tormentas em travessias.



terça-feira, 24 de maio de 2011

A uma pequena que chora

Para Yasmine Spínola


Quando vi a dor arder minhas mãos, vinda
de teu discreto choro, desejei o castigo
de pregos em meus pulsos cegos de cuidar.

Impotente em minha cruz de ofícios te desvi,
pequena, que mal suportava a triste enchente
que, muda, te transbordava. Me afogava.

Agonizo agora na secura trêmula de minha alma,
queimando meus olhos inúteis de tocar. A derramar
minha única gota que insiste, no eterno de te sentir.

Minha face injusta esqueceu-te, e agora chora,
pois tua súplica foi mero pó na minha tormenta
de silêncios a te destruir, doce pingo de alvorada.

Mas sei do grande rio de tua vida, tropeçante em sombras,
porém firme, tal ampla trilha de duro chão, onde tu,
pequena, segues. Tuas lágrimas contarão teu mar de vitórias.

Vejo minha grande ilusão em pensar-me consolo, calmo regato
a lavar teu pesar, e seco a gota de lamento por ti. E, então,
derramo meu sangue em suas águas – teu perdão, minha oferta.



quinta-feira, 21 de abril de 2011

O chão da alma



De súbito, a amplidão acenou em mim a esperança,

inundando o clarão a fraturar as sombras de meus olhos gastos
de se fechar, que, por pouco, perdiam-se no estagnado.

Ignorada é a dor que antes trilhava desfiladeiros na turva jornada:
a Morte, na velha carroça que em minhas mãos insistia,
era a guia dessa densa noite de desterros.

Porém, interminável na vista, o planalto
marca nos meus pés a indomável rota, resoluta e mística.

Eu, cego de luzes, sou envolvido pelo Tudo a firmar meus passos,
sujos da grande terra fértil, tingida pelo vermelho do intenso sol.

Agora céu e chão – unidos no voo incerto e vivo – levam
as areias do tempo (o mais esquecido longe),
e eu, nos ventos da Iluminação, sigo para o mais inóspito solo –
que de verdes arboresce e de auroras avermelha-se:

a terra assentada em minha alma, desabitada no silêncio do [desvisto
e que, na sede de êxtases, abre-se, num claro peito, que em [venturas
planta-me num outro nascer, alado, incontido. O Infinito.



domingo, 17 de abril de 2011

A ilha



Aquela ilha, longe, desvista na imensidão,

acena raros coqueiros secos, sombreando
a areia antiga e gasta de tempos.

Havia passos marcados, esquecidos de caminho,
_____a estranha inércia a vencer maremotos,
_____o vento movendo as folhas ressequidas.

O sol reverbera no céu o azul movente do mar,
impondo a vida nas ondas a brilhar:
peixes dançam cardumes e corais desenham jardins
por todo o oceano.

Estática, a ilha esquecida, ignorada.
iluminada pela mesma luz, fértil nas águas.
Porém a desabitada areia, amarela de passados,

afunda nas profundezas uma grande terra,
outrora carregada de todo verde e toda alma.

E que agora é apenas rastros do que marcado está;
é apenas a ilha, presente, vazia, a imóvel manter-se,
____________________________a, ignota, perder-se.



quinta-feira, 7 de abril de 2011

Sísifo aniquilado



O insustentável claustro da dor cresce,

enrijecendo ombros caídos de penar
a própria andança em mundo vasto
de montes feridos de largas distâncias.

Um espelho desenha-se na grande rocha,
riscando a face cinza. Eram os olhos do perder
e a vida vencida que subia, subia. Vencida.
E as mãos, duras, apenas a rocha empurravam.

Havia o topo, do maior sol, iluminando o “se”.
Porém, curvado, o crânio suado vertia-se
na ínfima força, em torturante penumbra.
E as lágrimas escureciam-se na terra sem luz.

Os braços, gastos de ordem, tremiam o vazio
a contrair músculos, ossos – e o peito.
E a pedra era maior que o monte, que o sol –
que o sangue que desesperadamente escorria.

O ar faltava, tanto quanto o topo não visto.
Os olhos, embaçados, focavam, perdidos,
o desfigurado reflexo. E Parada. A pedra.
Congelado. Sísifo. No martírio ofício.

Viu-se nos dedos desanimados, na boca
aberta e muda, nos ouvidos órfãos de pássaros.
E, nos rios vermelhos que cortavam sua face,
viu a vida descer, feroz, sobre sua rasa alma.



segunda-feira, 14 de março de 2011

Inocente

“Acordar é um pouco de morrer.”


Sonhando a deixar o doce colorir os passos,

levava em si o berço de sua pequena aurora,
pendurada em sóis plásticos de um brinquedo
que no alto desenhava a cantiga a leve soar.

Eram os olhos fechados a ver o arco-íris, a dar
à língua o gosto de viver, lambuzando dentes
em sorrisos brancos de nuvens. E o sol, acima,
girando, girando, na brisa do entardecer.

E fechados ficavam, sem saber do falso do sol,
que sorria o opaco desenho de sua cor, frágil
adorno a ninar um sono. Pequeno, ínfimo –
e profundo, pois não via o branco vácuo do acordar.