terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Imenso mar (ou O Tempo e o Eterno)



Insistente no céu o cinza hostil
irrompia
enquanto a calma nadava no imenso mar,
de raras vagas a girar com o alto vento,
fronteirando frágil as gládias naturezas.


O Tempo banhava-se no horizonte azul, de ignorada fundura,
fazendo sua misteriosa luz boiar infinita
e ferir a fria cor do sombrio páramo, de náufraga aurora.
Tirânico, o Eterno trovejava a noite de secas tormentas,
com o perdido chovendo no mar o morto olvido.

O horizonte rachava-se no triste embate:
a fúria celeste cavava os vagalhões titânicos,
golpeando com raios vácuos os braços do Tempo.

E, voando no ar, gritos do fogo e da procela.

O milenar paredão, cúmplice meu, murmura
em mim a dor ecoada de suas fendas.
As areias, meu repouso, são a morte da grande rocha,
escavadas pela amplidão das eras.
Sopros trazem a secura da guerra à pedra, cortando-lhe
a pele, e rajadas de vazio descem do espaço, fazendo verter
de um corpo morto as cinzas do Eterno cego.

Afundo-me na areia, incerto.
Com a face dura, impenetrável.
Descalço de fé, seco de unção,
esquecido da Hora.

Lembrado somente pelo rochedo de cínzeo pó,
cuja ossada é a cova aberta nas ruínas dos milênios –
onde enterro-me, ausente de mar, surdo de estrelas.



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