sábado, 20 de setembro de 2014

Abissal de Narciso


A última gota esvai-se no espelho.
Borrada, escorrida de incertezas,
trança frestas sentidas.

Há silêncios trincados – veias expostas
de um moribundo sorrir, sonhar.

O dilúvio em cacos,
mar de eus náufragos:

ilhados na areia ferina e fervente,
evaporando o traço rascunho –
antes falésia dos olhos altos,
mirados ao céu, apoiados em águas.

                           .   .   .

Os cascalhos chacoalham ecos,
seixos de si, saudosos,
sedimentos sentimentos:

um rosto apagado,
alagado de pó,
vento
e nada.






quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Aquário de náufragos



Há um lago de tormentas represadas,
de um claro-calmo falso,
margeando o incabível.

Um dia infinito - marítimo querer -,
o espelho d'água parte-se
em abissais,

e o mergulho,
derramar-se da alma,
agora afunda, sufocante,
a íris que grita
o reflexo.

O oceano que se desfaz,
espirrando o lago,
é eco de longo anseio
de um frágil nadar,

despido de face, fé
de fôlego -

de fim. 

quarta-feira, 25 de junho de 2014

A cor que olha

Devora-me.
Adocica pressas -
passeia-me desejos.

Choques, peles e cores
enroscam-se rindo -
elevando-se, leves.

Um gosto caramelo,
faminto, guardo.
E um corpo de fogo,

derretido em suspiros,
grudados, mordidos -
Incontáveis.

O ar que fica
vê-me, na cama
vazia e virada,

e vicia-me - você.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

O pó de voz



Coçando a garganta pra sufocar o incômodo, não percebi inútil o gesto. A voz, interrompida, teimava palavras cansadas de furar o bolo que, inconveniente, se inflava. Mas de verbos, migalhas de sons secos sacudiam os ouvidos fartos e insones, de vistas tediosas. Engasgavam as pálpebras, talvez pra capturar o que no ar vibrava meus recuos.



E meu corpo, afásico de ser, observada frangalhos fonemas debaterem-se no chão, em sede, corroendo-se com o peso daquele pedaço de receio que incomodava-se em minhas vias. Minha língua, estranha a mim, logo enrolava-se em fricções áridas, descascando-se: e em cada arrastar vão, a dor e a mudez, empoeirando-me. E os que desejavam o sono veem agora o pó, tímido, traindo suas vistas e sumindo - marejando olhares e sussurrando silêncios.

sábado, 3 de maio de 2014

Das cores, num cinza I


Desvi adeus quando a vi,
colhendo vontades com os olhos.
Dançando lábios, 
vermelhos de calmas, era em mim o toque 
um passear de fogo e afeto.

Num agora breve da cidade em pedra desando-me,
cego-me em sentir, sem horas,
despido de pressas,
perdido na pele que me envolve - sua.

domingo, 27 de abril de 2014

O ar de rosas



Cego de cinza, eu calçava passos
de desquerer, descrentes de sol.

E pedras crispavam pés
em labirintos silêncios.

Mas um rosa cheirou meus olhos,
Pintando uma mão, fio dourado
a trançar-me sorrisos.

Caído o claustro, cavo o céu
de pétalas, planto confortos
e colho um peito a riscar-me.

Aspiro o decalque do que,
desvisto, acreditei apagado:

olhos de só azul, iluminados –
cores que dele saem, infinitas

e o perfume de querer aquarelas.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Voo abissal


De nadar cansei, com braços de nadas,
estendendo o olhar para qualquer azul:

única força a tanger a tormenta,
enquanto a carne flutua - pesada.

A vista voa feito vela a a vestir ventos,
vagando solta da voz que afunda - vazia.

E o corpo pende no fio do espelho d'água,
profunda pedra a perder o peito que pulsa.

E se me perco de mar, martírio de ser,
deixo olhos do que vi lá, em outro azul.