domingo, 28 de novembro de 2010

Quando valsares

"Por não te possuir, tendo-te minha
Por só quereres tudo, e eu dar-te nada
Hei de lembrar-te sempre com ternura."
Vinicius de Moraes


Quando valsares, peças desculpas à Matéria,

por ferires limites e superfícies.
(Desconhecida ela se faz da tua sinfonia.)

Quando valsares, lamentes pelo ar,
que rouba, viciado, o cantar de teu perfume.
Na delícia do sopro teu ritmo descansa.

Quando valsares, ignores o chão torpe,
raiz do mundo frio e injusto,
de olhos cinzas à sua doce dança.

Quando valsares, não chores por outros
que lhe trombam com a rocha do silêncio.
(São ouvidos mortos, de ermas vagâncias.)

Quando valsares, não digas nada para ti:
conheces bem a música que marca teu peito.
Teu corpo, de pés bailarinos, pulsa maiores auroras.

Quando valsares, apenas Valsa sejas.
A murcha substância do marchar definha
no teu eteno passo, a entoar o Tempo e ecoar a Vida.



8 comentários:

  1. Sua poesia será aclamada pelos literatos brasileiros. É de um sentimento e uma harmonia profundos. Imagino ser indescritível escrever assim, bem como o é ler.

    ResponderExcluir
  2. De longe o lirismo mais suave, deu vontade de valsar.

    ResponderExcluir
  3. Desde antes, sou fã de tua escrita!

    ResponderExcluir
  4. Cheguei a sentir o díafano tecido que cobria os pés bailarinos. Obrigado!

    ResponderExcluir